quarta-feira, abril 22, 2020

Eis que me apresento (Augusto de Lanóia)

Não sei por onde anda esse tempo que voa distante de mim
Tão inquieto e silencioso como o breu de noites sem fim

E é na solidão de um errante nato
Que apodrece o guerreiro se entregando ao incerto

Já não sei em que passo me perdi da sua mão
Já não sei o que me basta no tudo que se presta
Pois nesse rasgo do tempo
No mergulho até o fundo
Ouço gritos calados dentro do meu coração

Apedrejando o que me falta e rejeitando o que já me tem
Sem desistir sigo almejando o que posso pois meu desejo vai pra lá do além

Talvez seja um sonho ou talvez apenas ilusão da prorpia vida em si mesma, pois nao ter as respostas é o abandono do tempo em sí mesmo

E permitir-se invasoes, agravantes do que não me peço
Muta tudo nos campos da imensa terra de angústias

Me resta então analisar o passo em falso
E o que passou despercebido nesse tempo disfarçado

E o tempo vai se indo no logo mais
Bem ali... no logo ali..
Repetidamente no clarão de uma rajada ruim.


terça-feira, abril 21, 2020

Soneto do esquecimento (Augusto de Lanóia)


Não te basta surgir em mim como fuga em ti
Não me basta ouvir em ti o que já sei de mim
Não te iludas na arrogância do já vivi
É aprendizado, é vida! É luta sem fim

A dor inevitável é uma platéia que assiste
Ao roteiro doloroso que nos sufoca o suspirar
E no sentido mais vil que ainda insiste
Esquecemos de adorar as vibrações só por vibrar

E com ela, o vasto encanto da pura e bela beleza
E o que tanto temes: busca em sí na própria dor...
Criará desculpas em brisas delirantes

Sem perceber que não lembrar desse pavor
É um ato falho de não se ver o que foi antes
Será pesar diante do fim, posto que é incerto no caminho da certeza.






quarta-feira, abril 08, 2020

Tudo que passou (Augusto de Lanóia)


Tudo que passou
De alguma forma me moldou.
Tudo que eu viví
Muitas vezes não senti.

E agora em cinza nebulou
O quase livre do meu fim.
E a oração de quem quebrou
Chora agora a busca em mim.

Você que achava que podia ser
Nao viu a vontade dentro do querer

Sentir já não consigo
O que deixei meu objetivo
Não já tenho a atenção
Dos gritos do meu coração

E se isso for problema
Me condene com sua pena
E se isso for em vão
Não me procure pelo chão

Achei que você pudesse, talvez, ser
Aquela apenas capaz de entender...
Que a vida não quer nem saber
Se a tua vontade está dentro do teu querer

quinta-feira, dezembro 19, 2019

A paz (Augusto de Lanóia)

A paz, que porventura perdura, não dura.

E assim é que é. Estranho é se fosse aos avessos.

Repetidos tropeços sem alongar.

Não há ginástica nessa matemática.

Ela não apenas insiste... a paz...

Ela apenas existe!

quarta-feira, dezembro 18, 2019

Voar ou andar? - Augusto de Lanóia

Vejo formas disformes pelo vidro opaco da janela .
Mulheres nuas, anjos cadentes, espiões na espreita, velhos doentes

Sexo sujo, dormentes sombrios, impávidos duendes, crianças com frio

Famintos em súplica, cigarros manchados, reflexos sem donos, mãos e pés calejados...

Aos sons no fundo de  tudo, ao longo horizonte distante, um bater de asas gigantes sem forma ou olhar...

Seria um passado distante? Um presente gritante ou um passar sem notar?
Seriam asas gigantes de um esquecido e velho voar ou apenas uma invenção infantil de um ja tão confuso andar?


segunda-feira, dezembro 16, 2019

Do outro lado do medo (Augusto de Lanóia)

Está torto o osso de tanto levantar
No fundo do poço não dá pra se agarrar

A alma grita um resto de atenção
Vibrando um sonho de não viver em vão

Mas o tropeço se repete no andar
De um garoto que sonhava em voar

E a cada passo, um passo em falso
me convencendo do contrário do que não quero enxergar

Mas uma hora a razão vem cobrar
E é lá do outro lado do medo que ela vem questionar

O que esta dentro, calado, amarrado e amordaçado
O que está dentro ainda dentro de mim
Aquela essência que ainda mora ali bem dentro de mim
Amordaçada e maltratada,  mas ainda parte de mim

E cabe a mim escutar sem questionar
E agradecer sem duvidar
Pois lá do outro lado do medo, existe apenas o lado leve de andar

terça-feira, junho 25, 2019

Previsão do tempo (Augusto de Lanóia)

Nem tudo que nos é relevante
Se deixa visível ao simples acaso
Perante o todo que nos alucina

Quem dera todo o constante
Se fizesse presente no tropeço da pedra
Durante o caminho de nossa sina

Mas a cada passo que passa
Passamos também, amiúde
Desperto e atentos as mudanças do clima

Vai uma ilusão aí ? (Augusto de Lanóia)

Atualmente qualquer pequena migalha de realidade me interessa
Pois por muito tempo, toda e qualquer raspa de ilusão, era imediatamente aceita por mim

Era como um pedinte na  rua:
"- Desculpa incomodar senhor, mas vc teria um pouco de ilusão para doar?"
"- Desculpa amigo... não tenho nada........já usei todas as que eu tinha."

E assim passaram-se os dias, meses e anos... sempre na esperança de "um dia".
E aquele plano de ser uma pessoa melhor amanhã?
R; Postergado...

E aquela viagem que sempre desejou fazer?
R: Postergada...

E aquele controle financeiro que tanto você precisa fazer?
R: Amanhã eu começo...

E aquela promessa de parar de fumar?
R:  Postergada

E aquele flerte que você planejou para espantar a solidão?
R: Semana que vem eu falo com ela!

E aquela decisão de afastar tudo que te faz mal?
R: Ah... fala sério...

E aquela vontade de viver?
R: Sigo na luta... Isso não se posterga

E aquele pensamento sobre a passagem inevitável de todos os seres?
R: Ela não tem data pra acontecer.


Basta! O meu auto-convencimento sobre todas as coisas já é ilusão suficiente pra uma vida só.

Agora o que desejo mais são petelecos úmidos e desformes de uma realidade nua.