terça-feira, junho 25, 2019

Previsão do tempo (Augusto de Lanóia)

Nem tudo que nos é relevante
Se deixa visível ao simples acaso
Perante o todo que nos alucina

Quem dera todo o constante
Se fizesse presente no tropeço da pedra
Durante o caminho de nossa sina

Mas a cada passo que passa
Passamos também, amiúde
Desperto e atentos as mudanças do clima

Vai uma ilusão aí ? (Augusto de Lanóia)

Atualmente qualquer pequena migalha de realidade me interessa
Pois por muito tempo, toda e qualquer raspa de ilusão, era imediatamente aceita por mim

Era como um pedinte na  rua:
"- Desculpa incomodar senhor, mas vc teria um pouco de ilusão para doar?"
"- Desculpa amigo... não tenho nada........já usei todas as que eu tinha."

E assim passaram-se os dias, meses e anos... sempre na esperança de "um dia".
E aquele plano de ser uma pessoa melhor amanhã?
R; Postergado...

E aquela viagem que sempre desejou fazer?
R: Postergada...

E aquele controle financeiro que tanto você precisa fazer?
R: Amanhã eu começo...

E aquela promessa de parar de fumar?
R:  Postergada

E aquele flerte que você planejou para espantar a solidão?
R: Semana que vem eu falo com ela!

E aquela decisão de afastar tudo que te faz mal?
R: Ah... fala sério...

E aquela vontade de viver?
R: Sigo na luta... Isso não se posterga

E aquele pensamento sobre a passagem inevitável de todos os seres?
R: Ela não tem data pra acontecer.


Basta! O meu auto-convencimento sobre todas as coisas já é ilusão suficiente pra uma vida só.

Agora o que desejo mais são petelecos úmidos e desformes de uma realidade nua.



domingo, janeiro 06, 2019

O direito ao FODA-SE (Millôr Fernandes)

"O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala".

Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"?

O” foda-se!”aumenta minha auto-estima,
me torna uma pessoa melhor,
reorganiza as coisas, me liberta. "

Não quer sair comigo? Então foda-se!“.

Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!"

O direito ao "foda-se!”deveria estar assegurado na Constituição Federal”.

segunda-feira, agosto 13, 2018

Sem título (Rafael Aguirra)

Já estive bem pior, no fundo de qualquer lugar, quando nada te encontra, nem você quer encontrar.
Já estive bem mais longe de mim, já joguei tudo pro ar, já vi as consequências tomarem conta das circunstâncias,
Já fui criança, já dancei conforme a dança, e quando você cansa, se esconde e espera tudo passar, e então nada te alcança.
O que é uma aliança? O que é um compromisso? São noções um tanto vagas pra alguém que vive omisso.
São tantos os precipícios, tantos caminhos, tantos sentidos, poucos indícios de que algum seja verdade.
Já estive com a mente, o coração e o corpo bem longe da realidade, atualizado acerca de todo tipo de meias verdades e completas mentiras.
Mas na sinceridade encontrei o ódio, e do ódio venho a necessidade do amor, venho como sede, venho pela dor.
E da dor de viver geram-se as cicatrizes, da tristeza de ser geram-se os primeiros passos.
Do convívio maduro com as divergências geram-se os primeiros laços, e do amor compartilhado os melhores abraços.
O isolamento emocional é como alguém que se alimenta das próprias lagrimas, o final é previsível, pra quem quer estar sozinho.
Como a sede que a água não mata, é a certeza de andar mesmo que esteja cansado, é a certeza do caminho.

Então do convívio é que o viver se alimenta... Pois convivamos então. 

quarta-feira, julho 25, 2018

Vem de longe (Augusto Delanói)


O melhor é se calar do que bradar
quando se está em meio ao caos

Presos a caráteres hipócritas que acreditam ser invulneráveis.

No mapa da mente obscura, verás apenas o mesmo lodo em que se afunda.
Quem sabe possa ser ouvido um dia se terminar a canção de gritaria em tua mente! Sem pudores onde deseja permanentemente algo que não tem.

Você acreditará, mesmo que não.
Você desejará sempre

Você sempre o culpará.

E das medidas urgentes se tem que relevar as dores em vão. Será mesmo tudo isso a parte de que tudo seria de outra forma? Não se sabe o quanto é interminável o infinito.
Será um possível buraco sem fundo, que vislumbrará no final uma luz onde poderá se jogar de braços estranhamente endurecidos de uma vida regressa. Se terminar assim não tem sentido o que está escrito.

Se for assim que seja da melhor maneira, pois palavras soltas ao vento podem dizer mais do que pensamentos sólidos.

Você acredita ou não em algo espetacular.
Mas apenas uma divindade será capaz de desfrutar daquilo que se apresenta no meio da fogueira.




sexta-feira, janeiro 26, 2018

Anestesia

Quando a dor é suportável tudo vale a pena.

Quando não... anestesia.

terça-feira, setembro 13, 2016

Engole

Em que momento deixamos de apreciar  o sabor e passamos a apenas engolir?

Em que momento passamos da frente pra trás?

Em que momento voltamos  atrás?

sexta-feira, agosto 26, 2016

Cálice (Chico Buarque, Gilberto Gil)

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade


Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça